terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A CRIANÇA QUE DESMAIA




O desmaio ou perca de consciência, pode ter muitas causas, como causas neurológicas (p.ex. epilepsia) causas metabólicas (p.ex. diabetes descompensada) causas cardíacas (p.ex. arritmias graves), traumatismos, intoxicações, infecções (p.ex. meningite), causas do sistema nervoso autónomo (p.ex. medo de tirar sangue). A maioria das crianças que perdem a consciência, têm uma síncope. Síncope é uma perca transitória de consciência, por uma causa muito específica, ou seja, uma falha na irrigação sanguínea do cérebro. Esta crise tem início súbito, curta duração, a criança recupera totalmente e não deixa lesões internas. Esta falta transitória de irrigação no cérebro, tem duas causas principais: - síncope reflexa, na grande maioria dos casos, e é uma causa benigna. - síncope cardíaca, uma minoria, mas a mais preocupante.

 A SÍNCOPE REFLEXA é um grupo heterogénio, cujo mecanismo comum consiste numa vasodilatação periférica, consequente baixa na tensão arterial e falta de irrigação no cérebro. Acontece tipicamente nos adolescentes, mais nas raparigas, e diminui a ocorrência com a idade adulta, mas por vezes pode voltar na 3ª idade... Aos mecanismos reflexos podem juntar-se outros físicos, como exercício físico intenso, muito tempo na posição de pé... Este grupo recebe também outros nomes como síncope vaso-vagal, síncope neuro-cardiogénica. Os motivos mais típicos e frequentemente desencadeantes deste tipo de síncope, são: - Posição de pé prolongada, especialmente ao calor, ou em espaços fechados, ou em grandes aglomerados de pessoas ... - Estados emocionais, como a dor, tirar ou ver sangue, mesmo cortar o cabelo, ou ver filmes e programas que possam impressionar ... - Falta de dormir, jejum, falta de beber água, menstruação, doença febril. - Acto de urinar ou defecar. - A seguir ao exercício físico violento. - Levantar-se de repente. - Alguns medicamentos, ou álcool, drogas ilícitas. Na síncope reflexa quase sempre a criança sente-se mal antes de desmaiar. Sente a cabeça vazia ou oca, tontura e fraqueza. A visão torna-se turva, vê tudo mais claro, ou diminui o campo de visão. O coração pode acelerar ou ter palpitações. Pode ficar mal disposta, ou ter dores de estômago Pode sentir calor ou frio, ter palidez facial e começar a suar. Algumas vezes a crise fica só por estas sensações e a criança não chega a desmaiar. É a chamada pré-síncope. Este tipo de síncope vaso-vagal é benigna, transitória e não causa lesão orgânica. A criança em geral prevê que vai desmaiar e não costuma magoar-se, mas nem sempre é assim... Estas síncopes reflexas ou as pré-síncopes, são geralmente recorrentes.
 A SÍNCOPE CARDÍACA
As síncopes cardíacas fogem a este padrão mais ou menos típico, ie, trata-se da primeira síncope, que aconteceu subitamente, sem estímulos desencadeantes, seja durante o exercício, com dor no peito, sentindo uma arritmia. Neste contexto, pode haver uma causa intrínseca cardíaca, em que o coração, devido a uma doença grave, não consegue bombear o sangue eficazmente. Estas síncopes exigem uma investigação, em geral, mais agressiva.

ABORDAGEM DAS SÍNCOPES
 Quando uma criança desmaia pela primeira vez, deve consultar o seu médico assistente. Este fará uma história clínica cuidada, que é um dos elementos mais importantes na avaliação. Algumas vezes a mãe, ou o pai, ou um irmão/ã mais velho tiveram estas crises na sua adolescência, e isto pode ser um dado tranquilizador. Uma avaliação física e laboratorial é também importante. O Pediatra costuma também pedir uma avaliação pela cardiologia pediátrica e eventualmente pelo neurologista pediátrico, se quer excluir com segurança uma causa neurológica. O Cardiologista Pediátrico, avaliando a situação dum modo global, tem, por um lado, a preocupação de excluir uma causa cardíaca, e por outro, confirmar uma causa benigna de síncope. Para isso existe uma série de exames, que vão desde o electrocardiograma simples, a estudos mais complexos que passam pelo ECG de 24h, o detector de arritmias de uma ou mais semanas de duração, ou mesmo um estudo invasivo electrofisiológico. O teste da mesa basculante ocupa um lugar particular e é determinante para se concluir se uma síncope é ou não de causa reflexa vaso-vagal.

  COMO TRATAR?
 As síncopes reflexas não precisam de tratamento medicamentoso, a não ser que interfiram seriamente na vida prática da criança, quer pela frequência quer pelas situações em que ocorrem. O tratamento das síncopes reflexas começa por assegurar aos pais e ao jovem, que esta situação é benigna e não põem, por si, a vida em risco. Uma vez identificadas as causas procuram-se evitar, se possível, mas a tomada de consciência delas ajuda bastante. O adolescente deve beber bastante água durante o dia, coisa que habitualmente não faz, até que a sua urina fique clara. E se tiver a tensão arterial normal, não deve restringir a ingestão de sal, coisa que acontece em certas famílias, quando um ou mais membros são hipertensos. Deve também evitar jejum prolongado, estar de pé por longos períodos, passar de repente da posição sentado ou deitado à de pé, quando possível, assim como evitar ambientes muito aquecidos. Se o jovem sente que vai desmaiar, duas atitudes podem abortar este desfecho: 1 – Deitar-se no chão e pedir para lhe levantarem as pernas. Isto melhora a irrigação cerebral. 2 – Contrair fortemente os músculos dos braços, unindo as mãos e esticando os braços durante pelo menos dois minutos, como se estivesse a espreguiçar. Contrair concomitantemente os músculos das pernas também, pode ajudar. Isto faz subir a tensão arterial e pode abortar a crise.

  CONCLUSÃO
Os desmaios na adolescência são frequentes, a esmagadora maioria são síncopes benignas, ainda que possam recorrer e preocupar os Pais. Quando uma criança desmaia pela primeira vez deve ir ao médico para esclarecer a causa. Uma vez confirmada a causa há tratamentos eficazes quando necessário. Mas uma vez confirmada a causa benigna reflexa, dar segurança à criança e aos Pais é muito importante, e existem medidas simples que podem melhorar os sintomas.



domingo, 24 de abril de 2016

Os abraços de Deus

Eu e o meu marido éramos pais de muitos filhos, bem casados e esperando outra criança. O número nove! Parecia-nos pouco razoável… "Meu Deus", orámos: "Não nos estás a pedir um pouco demais?" Precisaríamos de um carro maior. Maior do que o nosso grande carro. Maior do que o nosso Chevrolet Suburban! Rimos e chorámos e rimos novamente… Então fui fazer a primeira ecografia. Vi "IMA" na ficha, que me parecia bastante inócuo, até que, soube o que isso significava: "idade materna avançada…" A técnica ía fazendo o exame, mas de repente parou de conversar, o que quereria dizer que algo não estava bem. Encontrava um marcador no exame e precisávamos de fazer mais testes. O coração aparecia escuro, e poderia haver um problema. Eu nunca tinha feito testes antes, mas concordei. Descobrimos que o bebé tinha síndrome de Down. Quando contei ao meu melhor amigo do bairro, ele pareceu ignorar a conversa, e antes que eu pudesse tentar brincar com a situação, abraçou-me. Lembro-me desse abraço. Foi como se Deus me estivesse a apoiar, dizendo que tudo acabaria bem. Ele deu-me força para o que veio a seguir. Os médicos disseram que o bebé - Paulo seria o seu nome - tinha também um defeito cardíaco. Nos poucos meses seguintes passámos metade do tempo preocupados que Paulo morresse no útero, e a outra metade preocupados como ele viria a ser. Meu marido tentou-me preparar para a possibilidade de o perdermos, mas eu guardei cada pontapé do bebé como uma garantia, uma garantia falsa, e desejei que ele continuasse a chutar cada vez mais. A síndrome de Down não parecia tão grave, comparada com a cirurgia de coração aberto. As pessoas podiam viver com síndrome de Down - lidaríamos com isso quando fosse a altura, - mas ninguém estaria preparado para ouvir "recém-nascido" e "cirurgia de coração aberto" na mesma frase. Falar de corações do tamanho de nozes, sendo partidos e abertos, foi motivo para pesadelos e milagres. Paulo nasceu, e continuámos à espera que ele fosse diferente. Mas realmente isso não aconteceu - apenas os olhos e os dedos dos pés denunciavam a sua condição. Era o Paulo, e era muito bonito! Os dois meses seguintes esfumaram-se juntos, tentando nós fazer com que ele aumentasse de peso. Íamos ao consultório médico uma vez por semana para a pesagem. Preparámos biberons especiais, de modo a fornecer-lhe o máximo de calorias quanto possível. Eu sentia-me como a bruxa de Hansel e Gretel, tentando engordá-lo. “Come, meu bebé, come!” Mas não funcionava. Num dado dia, levei-o a uma pesagem. A médica ouviu o seu coração, pesou-o e auscultou-o novamente. Então ela disse-me: "Está na hora," e deu-me um longo abraço. Eu não entendia o que estava para vir. No entanto, lembro-me deste abraço. Mais uma vez, Deus usou alguém para me preparar para a próxima prova. Estava na hora de o levar para o hospital. Não poderia haver mais acompanhamento só em casa. Para o manter vivo, era preciso vigiar a ingestão de calorias, monitorizar o seu coração e assegurar que os rins não falhavam. Chamou uma ambulância para me levar com ele para o hospital. Passei o mês seguinte no Childrens Hospital, sozinha com meu filho, dormindo num sofá, comendo de uma máquina de venda automática e assistindo aos episódios de Ratatouille. No dia em que o transferiram do hospital para a Casa das Crianças, eu me apavorei. Queriam que ele crescesse; mas não havia maneira de o pôr mais gordo. A companhia de seguros queria que ele saísse do hospital até à cirurgia, mas ninguém sabia quando é que a cirurgia iria acontecer. A única meta era "mais crescido". Só que ele tinha perdido cerca de 60 gramas desde que chegara ao hospital. Quanto tempo se esperaria antes da cirurgia? Quanto tempo poderia eu estar longe dos meus outros oito filhos e do meu marido? Estávamos nós a empatar o tempo? Por quanto tempo poderíamos esperar até que ele morresse? Foi quando eu gritei com o médico… Ele, reconhecendo a minha síndrome pós-parto, ou seja, "Ela está-fora-de-casa-há-um-mês-e-o-seu-filho-não-está-a-melhorar", pegou o meu filho nos seus braços, e colocando uma mão no meu ombro, disse, preparando-me "Eu vou cuidar dele. Você tem que confiar em mim. Eu sei como a sua vida é preciosa". E contou-me de como tinha sido ameaçado à mão armada na sua cidade natal na América do Sul, e de como os guerrilheiros atiraram contra ele e contra as crianças que estavam com ele, para que não conseguisse tratar de um soldado ferido. As suas palavras: "Você tem que confiar em mim", senti-as como se fosse Deus falando ao meu coração. Dormi profundamente naquela noite, a primeira noite completa em semanas. Aquele médico escreveu uma nota no diário clínico, juntamente com a análise dos dados de perda de peso do Paulo e o recente aumento da temperatura, recomendando a cirurgia ao fim de uma semana. Eu nunca mais o vi, mas devo-lhe a saúde do meu filho, e provavelmente a minha sanidade. A cirurgia foi realizada rapidamente, e três semanas mais tarde Paulo e eu voltámos para casa. Parecia o dia do seu nascimento e que tínhamos emergido do túmulo. Ele recebera um coração novo, em troca do velho que não tinha uma parede nem válvulas suficientes para o sustentar. Hoje, o Paulo tem sete anos. Brinca com combóios e dinossauros e pediu mesmo agora para lhe vestir o seu traje de Iron Man. Os abraços que me dá são recordações daquelas três vezes em que me senti cair, e em que Deus me levantou através de outras pessoas. A síndrome de Down é uma realidade. Ele ainda está a aprender o uso do bacio. Ainda estamos aprendendo a comunicação. No entanto, tê-lo, é como ter qualquer um outro dos nossos filhos, alguém que não saberíamos como viver sem ele. Traduzido de aleteia.org A autora Sherry Antonetti é um ex-educadora especial e atualmente escritora freelancer e mãe de 10 filhos. Escreve em Catholicmom.com O seu blog é “Chocolate for your brain” e o seu email é sherryantonettiwrites@yahoo.com


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O SEU FILHO TEM UMA CARDIOPATIA?





As cardiopatias congénitas são as malformações mais frequentes no recém-nascido. Cada vez mais cedo são dadas aos Pais informações seguras sobre o decorrer da vida do seu bebé, se está tudo bem, se existem ou não preocupações. Provavelmente as alterações cardíacas e as cerebrais são as que mais assustam os Pais. E hoje em dia, numa gravidez vigiada e com os avanços tecnológicos, é muito raro um bebé com um problema cardíaco importante ter alta da maternidade sem que isso seja descoberto, exceptuando as situações que se manifestam só pelo fim da primeira semana, mas, em geral, estas são de fácil resolução. Quer seja durante a gravidez, quer seja ainda na maternidade, os problemas cardíacos importantes costumam ser diagnosticados. Quando os Pais recebem esta trágica notícia, é como se desmoronasse toda a estrutura que sonharam à volta do seu bebé, que queriam ver saudável e feliz. É como se um tufão passasse por aquela sala, naquele momento. Sentem-se completamente indefesos, assustados, desorientados. Durante a gravidez, esta notícia assume aspetos ainda mais trágicos, num clima do desconhecido, da incerteza, do que se não vê, do que não se sabe se causa sofrimento ao bebé ou não. Cabe ao médico estar muito seguro e calmo, fornecer toda informação de que dispõe, sabendo de antemão que os Pais não vão compreender grandes e longas explicações naquele momento. Uma futura avaliação a curto prazo, de preferência com um especialista na área, será mais esclarecedora. Nesse momento surgem as habituais perguntas, sobre a gravidade da doença, sobre as consequências, sobre a qualidade de vida do bebé, se vai precisar de ser operado ou não, se vai ser uma criança normal ou não, se pode praticar desporto como os outros. E os Pais têm que assumir uma decisão muito difícil por vezes, que é, se embarcam ou não no desafio de ter e criar um filho com uma doença importante, ou se desistem e interrompem a gravidez. Esta decisão tem que ser tomada pelo casal, numa vontade mútua, firme e esclarecida, porque o desafio de cuidar de um filho com uma doença importante pode unir mais ou então separar o casal. Por vezes o casal desiste deste desafio, e optam pela interrupção da gravidez, justificando que não querem ter um filho para que este venha a sofrer. Mas isto não é bem verdade, porque todos os que cuidam destas crianças sabem, com o sucesso dos tratamentos, como elas se tornam crianças felizes e activas. O tratamento das cardiopatias congénitas evoluiu muito nos últimos anos. Situações aparentemente complicadas, são quase sempre resolvidas pela cirurgia de modo a oferecer à criança uma actividade motora e mental normal. Os Pais devem-se sentir muito bem informados e esclarecidos das dúvidas que têm, e antes de tomarem qualquer resolução, devem também discutir com o cirurgião, que os informará da sua experiência e dos seus resultados no tratamento da doença do seu filho. Em geral as crianças com cardiopatia têm uma inteligência normal, e não têm mais nenhuma doença a não ser no coração, a não ser que tenham, por exemplo, alterações cromossómicas que implicam atraso mental. Mas isso não é o mais frequente, e a análise dos cromossomas é então recomendada. Nas cardiopatias muito graves corre-se o risco, ainda que pequeno, de o tratamento poder interferir na actividade mental da criança. A troca de experiências entre Pais que passaram por situações semelhantes, parece-nos muito importante. Os Pais que fizeram a opção positiva para o bebé, são pessoas de luta e esperança, e a transmissão desses sentimentos pode ser encorajadora. Concluindo A notícia de que o bebé tem uma cardiopatia é demolidora psicologicamente. Exige um esforço pessoal, do casal e do médico para ser bem compreendida e aceite. As cardiopatias, em termos grosseiros, podem ser simples, graves, moderadamente graves e muito graves. As simples não precisam de tratamento, ou então tratamento sem cirurgia (cateterismo). As graves e moderadamente graves, têm hoje em dia possibilidades de excelentes resultados com a cirurgia. As crianças ultrapassam estes desafios com uma boa-disposição e energia espantosas. As cardiopatias muito graves, têm solução cirúrgica, algumas em diferentes etapas. Algumas acabam em transplante cardíaco, e os resultados são mais preocupantes. O casal deve esclarecer-se, procurar apoios e manter diálogo, um com o outro, com a família e amigos, com outros Pais que passaram pelo mesmo, com o médico, eventualmente com o psicólogo. Esta é uma experiência difícil, mas não desesperante, que chegada ao fim resulta quase sempre numa criança feliz, que, se não for super-protegida, anda e cresce descontraidíssimo. Estes são Pais que, com as suas dúvidas e angústias, cresceram mais como pessoas e casal, e formaram uma família mais unida, mais preparada para testemunhar, junto dos mais jovens, como enfrentar certas dificuldades...




terça-feira, 28 de maio de 2013

DOENÇA DE KAWASAKI

Os Pais devem tomar consciência desta doença infantil, porque o tratamento feito a tempo pode evitar complicações cardíacas graves. Na primeira metade do século vinte, a doença que atacava mais o coração era febre reumática. As suas complicações cardíacas grassaram no mundo ocidental, mas a pouco e pouco foi ficando controlada, ao descobrir-se e dominar-se a infecção que está na sua origem. Actualmente é uma doença rara entre nós. Hoje é a doença de Kawasaki, descoberta no Japão nos anos 60, que nos países desenvolvidos, começa a ser a principal causa de doença cardíaca que pode afectar uma criança saudável, sobretudo crianças abaixo dos 5 anos. E em Portugal pode afectar 5/100.000 crianças nesta idade, mas este número pode estar sub-estimado. A causa não se conhece ainda, mas parece ser infecciosa talvez viral, e uma criança na primeira infância, saudável, começa com febre e sintomas respiratórios, tipo constipação, com tosse e secreções nasais. A FEBRE, 38 ou mais graus, é obrigatória nesta doença, e não desaparece mesmo que ao fim de 4 ou cinco dias a criança já esteja a tomar antibiótico. Entretanto aparecem manchas na pele pelo corpo, os pés e as mãos ficam inchados, os olhos ficam vermelhos e inflamados, mas sem secreção, os lábios gretam, e a língua fica tipo framboesa. A criança mostra sinais de doença e fica muito irritada, surgindo também outro sinal importante que é um caroço, gânglio aumentado e doloroso no pescoço, em geral só num lado. Estas são as manifestações típicas que aparecem na primeira semana da doença de Kawasaki, e com estes dados evidentes não é difícil fazer-se o diagnóstico. No entanto, há formas incompletas, em que faltam alguns deste sinais, e o diagnóstico torna-se mais confuso. É que o diagnóstico é só clínico, não existe nenhum teste laboratorial definitivo, só existem testes orientadores ou de suspeita. Por isso há crianças que começam o tratamento só com base na suspeita, o que é defensável, porque se as complicações cardíacas surgem, já não se podem evitar. O diagnóstico deve ser feito na primeira semana, idealmente ao 7º, 8º dia desde o início da febre, porque é nesta fase que o tratamento é mais eficaz. Tratamentos muito precoces podem não ser tão eficazes, pelo que os Pais devem chamar a si a maior serenidade possível e colaborarem com o pessoal de saúde. A criança tem que ficar internada para fazer o tratamento que consiste numa dose de gamaglobulina injectada na veia durante 8 a 12 horas, e aspirina em dose alta. Rapidamente todos os sintomas desaparecem e a criança melhora, ficando bem disposta. Raras crianças têm que fazer outra dose de gamaglobulina porque não melhoram, sobretudo a febre não cede completamente. Não é habitual este tratamento dar complicações. Sem tratamento, cerca de 25% das crianças irão ter lesões cardíacas, mas com o tratamento descrito esta probabilidade reduz-se drasticamente. As complicações mais temíveis são as lesões das artérias coronárias, vasos que irrigam o coração, e que surgem na segunda ou terceira semana da doença. Surgem dilatações ou mesmo aneurismas, que se forem grandes vão ficar para a vida toda, e exigem um acompanhamento e tratamento especializado. Na segunda ou terceira semana de doença surge também descamação das mãos e dos pés, caindo a pele em placas, mas este é um sinal tardio e não conta para se fazer o diagnóstico, só para se confirmar. Em resumo, a doença de Kawasaki é uma doença séria e os pais devem conhecer os seus sinais: Febre com 5 dias Manchas no corpo Pés ou mãos inchadas Olhos vermelhos, lábios inflamados e gretados, boca e língua vermelha Gânglio grande num dos lados do pescoço Além da febre, não são obrigatórios todos estes sinais para se fazer ou suspeitar do diagnóstico. Se a febre persistir ao 5º dia, os Pais devem levar a criança a um serviço de urgência, mesmo que ela já tenha sido vista por um ou mais médicos e esteja a ser medicada. É que os sinais que dão o diagnóstico mais correcto, só então começam a surgir. Se for feito o diagnóstico de doença de Kawasaki, a preocupação dos pais é mais que legítima, mas devem também ter a noção tranquilizadora de que se o tratamento for feito nessa primeira semana, a criança fica bem de um dia para o outro, e fora de perigo, voltando a ser uma criança saudável. (ver também http://www.linharara.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=68&Itemid=30)


terça-feira, 10 de agosto de 2010

"BOLA DE GOLFE" NO CORAÇÃO

Muitas mães ficam preocupadas porque o seu bebé tem uma "bola de golfe" “golf ball” em inglês, ou uma imagem hiperecogénica, no coração.
Este é um achado frequente no ecocardiograma fetal.


Podemos considerar dois aspectos ao falarmos da importância das “golf ball”.


Em termos cardíacos, estas formações não têm nenhuma importância, nem são nenhuma malformação. São um achado NORMAL.
Podendo existir uma ou mais “bolas”, mais frequentemente são observadas no ventrículo esquerdo, mas também no direito.
A formação mais tardia do interior do coração, na zona dos ventrículos, ocorre sobretudo por um processo activo de “escavação” e modelação, dependente sobretudo da corrente sanguínea. Pelas 18, 20 semanas de gestação, notam-se pequenas estruturas musculares alongadas, que atravessam o interior dos ventrículos, e que, ao serem fotografadas de topo, surgem como uma pequena e branca bola, as chamadas “bolas de golf”. As bolas de golfe cardíacas não são calcificações, e com o passar dos anos, estas estruturas esbatem-se e muitas desaparecem, mas são um achado normal. O local de inserção das cordas da válvula mitral nos músculos papilares também dá muitas vezes este aspecto de densidade aos ultrasons, o que também é um achado normal.


Tudo funciona perfeitamente com ou sem bolas de golf.


Em termos genéricos já têm outro significado, pois há estudos que associam as “golf ball” a alterações cromossómicas no bebé, nomeadamente trisomia 21 (ou síndrome de Down)


Neste caso, temos que considerar duas situações:

1 – Se a gravidez decorre na normalidade, sem outros marcadores positivos que levantem suspeitas, então não há motivo para preocupação. Este “marcador cardíaco” isolado não tem significado, e o risco é o da população em geral, cerca de 0,1%. Há autores que apontam esse risco como sendo de 1%.


2 – Se existem outros marcadores associados, nomeadamente achados na ecografia das 11-13 semanas, sobretudo a translucência da nuca aumentada, rastreio bioquímico alterado, idade materna avançada, é aconselhável fazer-se amniocentese para excluir alterações nos cromossomas do bebé.


A amniocentese é uma manobra que, feita por médicos experientes, tem um risco muito baixo, praticamente nulo, e para os pais, tem a vantagem não só, de excluir doença nos cromossomas, mas também acabar com a ansiedade gerada por estas situações.
Existem actualmente outros métodos mais cómodos para excluir as principais anomalias cromossómicas no bebé, estudando o DNA fetal no sangue da mãe. Estes métodos têm uma acuidade bastante alta, mas só a amniocentese oferece uma segurança diagnóstica total. 

Conclusão
As "bolas de golfe" têm um aspecto e localização muito típicos, são benignas, fazem parte da formação normal do coração e são relativamente fáceis de diagnosticar.
No entanto, há anomalias cardíacas que podem, numa fase inicial, simular as "bolas de golfe", pelo que o estudo por ecocardiograma fetal se torna importante, para afastar estas situações mais preocupantes, e descansar os Pais!













sábado, 5 de junho de 2010

DOR NO CORAÇÃO NA CRIANÇA

Alguns Pais, preocupados com a dor no peito nos filhos, enviam perguntas para este blog, mas
uma resposta segura e honesta só pode ser fundamentada na avaliação clínica da criança.
De qualquer modo, dum modo geral, as recomendações que daria, são:
1 – O médico assistente é a pessoa mais indicada a quem colocar estas questões, porque conhece a criança e a família.
2 – Na criança, raramente as dores no peito são sinal de doença grave, contrariamente ao adulto. Os sinais que poderão descansar os pais são:
A dor é breve e acontece tanto em repouso como no esforço. É tipo ma picada que “Vem do nada” como dizem os mais crescidos. 
Mais frequentemente o dedo aponta sobre o esterno, central. 
Nessas alturas, se respirar fundo, a dor aumenta, porque tem a ver com a grelha costal. 
O coração pode começar a bater mais depressa quando a criança se assusta. 
Esta é quase de certeza, uma dor benigna.
3 – A dor é preocupante se é surda, é mais espalhada, mantém-se e não passa. 
Pode haver dificuldade em respirar, tosse ou mesmo febre. 
O coração está um pouco acelerado.
 As dores que surgem predominantemente no exercício, que dão tontura ou desmaio, ou aceleração rápida ou irregularidades no ritmo cardíaco,  também são preocupantes.

Que fazer se a criança tem dor no peito?
1 – Há crianças que choram com a dor. A criança está assustada, pode doer, mas a dor será mais provavelmente benigna. Os pais ou os cuidadores (escola) devem ter calma e esperar uns minutos. É muito importante acalmar a criança carinhosamente dando-lhe segurança. (só pessoas acalmadas podem transmitir calma…)  A criança acalmou mas a dor não passou. Veja como ela está; sinais de doença? Está pálida? Ponha um ouvido no peito dela e veja se o coração bate muito depressa (superior a 200 pulsações/minuto). Se o coração estiver bem (100/120 pulsações ou menos)  passe uma pomada para a dor no peito dela, e espere mais 30 minutos. A dor vai passando, já não dói tanto quando respira fundo. Será uma dor musculo-esquelética, que passou com atenção e segurança dos pais (ao deitar estas dores costumam ter um componente de ansiedade mais importante)
2 – A dor surgiu no desporto, mas a criança continuou a jogar e passou, ou o treinador não valorizou, será uma dor benigna, a valorizar se se repete mais vezes.
3 – A dor é surda, começou ontem, diminuiu um pouco com um xarope para a febre/dor, mas hoje voltou igual, a criança não está confortável: telefone ao médico assistente.
4 – A dor foi concomitante com desmaio ou tontura, de breve duração, ou irregularidades importantes no rimo cardíaco, deve consultar o médico e não deve praticar desporto enquanto não houver um diagnóstico.
5 - Existem a acrescentar a este dados, sinais de alarme familiares, mesmo quando a criança é tida como saudável, sem sintomas e, em geral, é vista regularmente pelo pediatra . Esses dados são: um parente próximo, com arritmia cardíaca importante, que o leva a fazer medicação ou que colocou um pacemaker. Uma doença cardíaca familiar conhecida, nomeadamente doenças do miocárdio. Morte súbita em familiar próximo (< 40 anos de idade).
Estes dados, sobretudo se a criança/jovem praticar um desporto federado, devem levar a uma consulta de cardiologia pediátrica.

Depois destes aspectos práticos, falemos então da “dor no coração” na criança.



A principal causa que leva os Pais a uma consulta de cardiologia pediátrica, é o facto de o médico assistente dizer que a criança tem um sopro.
Logo a seguir são as dores no peito, a “dor no coração”.

No peito há muita coisa que pode doer, mas o coração é quase sempre o culpado...
Em geral trata-se de um rapaz, pré-adolescente magro, desportista e saudável, bom aluno e um pouco ansioso. A dor é real, aguda, tipo pontada, localizada ao centro do peito, sobre o esterno. É uma dor moderada e que muitas vezes dificulta a inspiração, daí que também é referida “falta de ar”. Costuma durar poucos minutos e depressa passa, assim como veio. Não costuma haver alterações do ritmo cardíaco, a não ser alguma taquicardia, porque a criança se assusta e fica ansiosa. A dor pode surgir quer durante o exercício físico, quer em repouso.

Esta dor é musculo-esquelética e tem origem nas articulações entre o esterno e as costelas.
O exercício físico intenso, como nadar, andar de bicicleta, ou outros (mochilas...), podem causar este tipo de dor. Os defeitos de posição, como sentar-se mal, dormir em más posições, podem facilitar esta dor.
Esta é a “dor no coração” de longe a mais frequente. Uma vez que a criança toma consciência da realidade, aprende a lidar com esta dor, deixa de se assustar, e a sua vida continua... Mas se quiser, tem aqui um bom  motivo que pode render algumas contra-partidas...
Por vezes as articulações em causa podem mesmo inflamar e levar a uma dor recorrente, podendo haver necessidade de tratamento com anti-inflamatórios.

Mas no peito há mais coisas que podem doer; felizmente são muito mais raras.
A pele pode doer, mas na criança costuma ver-se a lesão que causa a dor.
Os musculos podem doer, sobretudo se pouco treinados e sujeitos a um esforço excessivo.
Dentro do peito há dois sacos membranosos que podem doer: um que envolve os pulmões, a pleura, e outro que envolve o coração, o pericárdio.
São compostos por duas camadas, entre as quais existe um pouco de líquido lubrificante, para evitar que estes órgãos se magoem, pois estão permanentemente em movimento.
A pleura pode doer, mas em geral isto acontece num contexto infeccioso pulmonar, com febre, tosse e dificuldade em respirar. As pneumonias são a causa mais frequente deste tipo de dor, mais frequente à direita.
O pericardio quando inflamado, por certas doenças em geral virais, também doi, uma dor compressiva e constante, que não passa facilmente.

O coração doi, em particular o músculo cardíaco.
Os adultos que tiveram enfarte ou angina de peito, sabem como essa dor é forte e angustiante.
Em geral existem problemas com as artérias coronárias, que irrigam e alimentam o coração, que, ao entupirem, fazem sofrer o musculo cardíaco. A idade, certas doenças (diabetes, colesterol alto, hipertensão arterial) e outros factores, em particular o tabaco, são os principais agentes.
Na criança estes factores não existem, no entanto há situações raríssimas que podem fazer doer o coração nos mais jovens. São anomalias congénitas das artérias coronárias. A dor aparece sempre e só no esforço físico, tipicamente, ou no bebé que chora, fica pálido e suado sempre que chupa o biberon, ou no adolescente que tem dor forte no peito, por vezes com arritmia cardíaca, quando pratica desporto. Estas situações são muito raras, mas sérias e exigem uma abordagem cuidada.

O aparelho digestivo também pode simular dor no peito, mas em geral as esofagites, hernias do hiato dão mais dor nas costas. Muito ar no colon ou no estômago, pode dar desconforto na parte inferior do peito.

Falámos de dor no peito em crianças saudáveis.
Há crianças com doenças crónicas, quer generalizadas, quer localizadas ao próprio coração ou aos pulmões, que podem ter dôr no peito. Estas situações, uma vez identificadas, são discutidas com o médico assistente e os Pais, que ficam assim mais esclarecidos das complicações que a doença do seu filho pode dar.

Concluindo:
A dor no peito, de longe a mais frequente, é uma dor tipo musculo esquelética, benigna, cujo tratamento principal consiste em acalmar e dar segurança à criança, ensinando-a a lidar com esse tipo de dor. Dê-se-lhe atenção, mesmo ( ou sobretudo...) sendo só isso o que ele quer.
Isto também dá uma certa segurança aos Pais. Não cabe aqui aos Pais lembrarem-se dos seus Pais, que faleceram por causa do coração.
Quase de certeza não é isso que se passa com os seus filhos, enquanto não forem avós...
Fica um “quase” que compete ao médico assistente resolver como abordar, se o estudo passa pelo cardiologista pediátrico ou não.
Não devem ser os Pais a decidir isso e a levar logo a criança “com dor no coração” ao cardiologista pediátrico, ou mesmo às urgências.
A criança tem um médico que a conhece, e deve ser ele a decidir o que fazer e como fazer.
Há tempo para resolver as coisas da melhor maneira ...

Quais são os sinais que nos podem preocupar mais?
1 - A idade da criança: antes da idade escolar, as dores no peito são benignas em geral. Na adolescência poderão ser mais preocupantes.
2 - Como surgiu a dor: se a criança está calma em casa e tem uma dor súbita no peito, que passa pouco depois, que não a deixa respirar bem, porque dói mais, é uma dor muscular.
3 - Se a dor aparece só no esforço, e a criança sai do jogo, ou desmaia, pode ser preocupante.
4 - O coração bate depressa: se aparece primeiro a dor, o coração bate depressa porque a criança se assusta. Se o coração bate depressa primeiro e depois aparece a dor, pode ser mais preocupante.
5 - O local da dor: se a dor é no centro do peito, numa linha vertical, é dor muscular esquelética. 

O coração dói! Mas, na criança, é muito raro a dor no peito ser do coração a doer!



quarta-feira, 12 de maio de 2010

ECOCARDIOGRAMA FETAL

O QUE É ?
O ecocardiograma fetal é uma ecografia ao bebé, como as outras, mas dirigida ao coração.
Em geral faz-se por via trans-abdominal e os aparelhos são os mesmos que para as outras ecografias feitas na gravidez. A diferença está em quem as executa, que não é um obstetra ou radiologista, mas um cardiologista pediátrico com formação nesta área pré-natal.
Neste exame estuda-se o coração e a função circulatória do bebé em pormenor.

PORQUE É QUE SE FAZ?
QUAIS AS GRÁVIDAS QUE DEVEM FAZER ESTE EXAME?

O coração do bebé em formação é um bom marcador para certas doenças congénitas ou mesmo adquiridas. Junta-se assim a outros marcadores ecográficos, podendo levar a decidir sobre certas atitudes, nomeadamente a amniocentese. Os marcadores que mais frequentemente levam ao pedido de ecocardiograma fetal são a translucência da nuca aumentada na ecografia das 12 semanas, a existência de dilatação pielo-calicial ou de quistos aracnoideus. O rastreio bioquímico ou as imagens hiper-ecogénicas no ventrículo esquerdo por vezes também.


Há obstetras que pedem este exame quase por rotina, sem nenhum motivo em especial, provavelmente, para tornar o seu acompanhamento mais consistente e seguro.
Outros motivos mais concretos são:
Ou porque, em geral na ecografia morfológica do 2º trimestre, se não viu bem o coração do bebé, ou ficaram dúvidas se estaria tudo bem a este nível.
Ou porque se notaram alterações do ritmo cardíaco do bebé, e pede-se um ecocardiograma para melhor esclarecimento.
Ou porque o bebé tem outros problemas identificados que se podem associar a cardiopatias
.
Há factores relacionados com os pais que podem ser indicação para este exame, como
os pais ou outros irmãos terem doenças cardíacas congénitas, a mãe tomar medicamentos ou ter doenças que podem pôr em risco o bebé.

EM QUE IDADE GESTACIONAL DEVE SER FEITO?
Este exame deve ser feito pelas 20 semanas de gestação, com uma margem das 18 às 22 semanas. É nesta idade gestacional que se obtêm melhores imagens do bebé, estando já o coração totalmente formado no seu essencial.


QUAIS SÃO AS VANTAGENS DESTE EXAME?
Falemos primeiro das vantagens para o bebé.
Vantagens imediatas:
- Situações cardíacas que podem ser tratadas logo ou quase.
Tipicamente são as arritmias fetais graves, que põem em risco a vida do bebé.
Um bebé com uma arritmia grave, quer seja o coração a bater persistentemente devagar a menos do que 100 pulsações por minuto (ppm) (bradicardia fetal) ou persistentemente depressa a mais de 200 ppm (taquicardia fetal) deve ser referenciado com urgência para um cardiologista pediátrico. Se administrado atempadamente, o tratamento feito a partir da mãe, resolve na maioria dos casos estas situações e o bebé deixa de correr perigo.
- Na gravidez gemelar , por vezes passa demasiado sangue de um bebé para outro, através de comunicações dos cordões na placenta, sobretudo quando esta é única.
É possível antever com alguma precisão se isto vai acontecer duma maneira drástica que ponha em risco a vida dos bebés. Há tratamento específico para estas fístulas, feito ainda na gravidez, cada vez com melhor resultado e menos riscos.
- Também é possível tratar certas cardiopatias no útero, por métodos mais invasivos, de modo a evitar que a situação piore com o avançar da gravidez, minorando consequências mais graves.
- Aos bebés com cardiopatia é aconselhável que se faça amniocentese para estudo cromossómico ou eventualmente de outras doenças.


A principal vantagem a médio prazo, uma vez conhecido o problema cardíaco que o bebé tem, é poder programar-se com tempo o parto. Isto tem a ver com o local onde o bebé irá nascer e o que deve ser feito de imediato. Requer uma equipa pluridisciplinar quer para tomar decisões antes do parto, quer para actuar no parto e depois dele.


Nem todos os bebés com cardiopatia têm que nascer longe da família, mas há bebés que não devem nascer fora dos hospitais centrais.


Para os Pais, a informação mais importante é saberem que o seu bebé está bem e não tem problemas no coração. Nos raros casos em que esta informação não é bem assim, após
serem ultrapassados os efeitos desta má notícia, são informados calmamente da realidade, das consequências e do tratamento. Antes dos pais tomarem qualquer decisão, é fundamental que sejam bem informados.  Caso seja necessária cirurgia cardíaca é importante falarem com o cirurgião que a irá fazer. Visitar as pessoas e os locais onde irá ser tratado o seu bebé, pode ser importante. Contactar com outros Pais que passaram já por esta experiência também é importante.


segunda-feira, 10 de maio de 2010

SOPRO CARDÍACO NA CRIANÇA

Sopro cardíaco é uma manifestação sonora, audível, de um acontecimento mecânico que se passa dentro do coração ou dos vasos sanguíneos.
O coração é sobretudo um motor, onde circula um líquido que é o sangue.
Os motores em geral, são constituídos por peças, válvulas, tubos, cilindros, constituintes estes que quando em movimento geram sons.
Muitos destes sons identificamos desde crianças… o motor do automóvel, da mota, da máquina de lavar, da máquina de barbear do pai …
O coração, digamos que, é um motor a 2 tempos.
E faz o clássico: (pum, pum) … (pum,pum) … (pum,pum)...
O primeiro tempo é a admissão do sangue no coração, que quando acaba gera o “primeiro pum” (encerram as válvulas de admissão); o “segundo pum” corresponde ao fim do segundo tempo, a expulsão do sangue para a circulação (encerram as válvulas de saída).


Outro elemento que no coração pode gerar sons, é o próprio sangue em movimento.
Ora, assim como em uma máquina de lavar louça a trabalhar podemos perceber dois tipos de sons, o do motor propriamente dito, e o da água que circula, também no coração, além do som das válvulas, de que já falámos, se pode ouvir o sangue a passar, sobretudo na fase de esvaziamento, em que o sangue sai do coração com alguma velocidade.
Em geral as pessoas não ouvem o seu coração a trabalhar.
Para ouvir melhor é preciso amplificar os sons, como faz o médico com o estetoscópio.


Bom, mas afinal o que é que origina um sopro cardíaco?
A primeira noção a reter e que já foi dita, é que qualquer motor ou líquido em movimento, causa sons.
Se esse som é harmonioso, suave, mesmo musical, estamos, em presença, por exemplo, de um relógio suiço, de um motor BMW 5 novinho em folha, de um ribeiro de água cristalina na serra do Gerês, ou duma criança saudável com um sopro chamado de inocente...
Felizmente, em cada 100 crianças com sopro cardíaco, 99 tem um um sopro deste tipo.
O termo sopro não é o mais adequado talvez, mas é o que mais faz lembrar os sons que o coração emite, principalmente nos tais 1% de crianças que têm mesmo doença no coração.


Os Avós ficam quase sempre assustados quando o seu neto “tem um sopro” ... e transmitem aos filhos, uma realidade sua, a de existirem há 50/70 anos atrás, muitas crianças com doenças cardíacas, à custa obretudo de febre reumática, que felizmente, quase não existe já entre nós.
Por outro lado, dantes um sopro tornava-se num mistério que acompanhava a criança até mesmo ser adulto.
Hoje, com a tecnologia moderna, principalmente a ecocardiografia com Doppler a cores, rápidamente tudo se esclarece.


Um sopro numa criança saudável, é isso mesmo, mais um sinal de saúde.
A criança transpira energia, pula o dia todo, corre de alegria, só pára para dormir, e tem um sopro no coração...
Tem que ter um sopro! Como a criança é um todo, esta energia exige um coração forte e alegre!
A estes sopros chama-se sopros inocentes.
No dia-a-dia com os pais, eu prefiro chamar-lhes uma música (sopro musical) uma vibração (sopro vibratório), termos mais simpáticos e que não fogem à verdade...
A causa destes “sopros inocentes” são condições normais do desenvolvimento da criança:
- O coração está mais perto da parede do tórax: ouve-se tudo o que se passa lá dentro ...
- Há no coração das crianças, uma maneira de crescer e estruturas próprias da idade (que infelizmente se esbatem com os anos ...) e que, como a água num riacho que se alarga e aperta, desce e sobe, fazem com que o sangue emita sons ou vibrações agradáveis, quando passa por elas.
- Na criança pelos 2 , 3 anos, só o facto de ir ao médico as assusta e faz aumentar toda a energia com que o coração trabalha. A febre também tem o mesmo efeito e faz aumentar os sopros.
Os pediatras muita vezes não ligam a estes sopros, porque sabem que na criança é normal existirem... e é por vezes é outro médico que fala aos Pais no sopro...
Outra noção a reter, é que, se um sopro inocente é sinal de saúde, energia e juventude no coração, é bom que não se fique à espera que ele desapareça...
O tempo não perdoa, e num ápice os nossos filhos já não são jovens, e nós, ainda menos...


Há um grupo etário em que os sopros inocentes tem um significado um pouco diferente, são os recém-nascidos. Nesta idade trata-se mais de uma adaptação da circulação, que é diferente dentro do útero e depois de nascer. Muitas vezes, só pelos 6 meses está tudo estabilizado. De qualquer modo, para o bebé, isto passa-lhe ao lado pois são adaptações naturais.
No entanto, os recém-nascidos não deixam de ser um grupo mais sensível, sobretudo em termos de urgência, pois por vezes não é fácil para o médico distinguir adaptação circulatória habitual de doença cardio-circulatória.


Conclusão:
Quando o médico do bebé ausculta um sopro, por vezes pede a opinião de um especialista.
Eu recomendo sempre que a avaliação seja feita numa consulta de cardiologia pediátrica, em que o médico fala calmamente com os Pais, consulta o Boletim de Saúde, observa a criança, e,
(o mesmo médico) faz os exames complementares que achar necessários, em particular um ecocardiograma com Doppler a cores.
Isto não tem outro sentido senão o de se fazer a abordagem diagnóstica segura, com resultados mais fiáveis.
Não vale porém a pena para tanto stress por parte dos Pais, nem tanta urgência nestas consultas...
Senão, veja o seguinte “fluxograma”:


1 - A sua gravidez foi vigiada? 
                         "Sim, e correu tudo bem."
2 - Fez ecografias morfológicas? 
(eventualmente até fez ecocardiograma fetal !)
                         "Sim, e estava tudo bem."
3 - O bebé nasceu numa maternidade e fez uma avaliação médica antes da alta?
                          "Sim ... e estava tudo bem."
4 - Já foi ao pediatra alguma vez?
                          "Sim ... e estava tudo bem."



OK, OK, 99,9% de probalidade de o seu filho ter um coração excelente ...



5 - Foi o pediatra habitual que lhe auscultou o sopro?
                   "Sim ... mas só ao fim de 3 anos é que ouviu ..."
(Volte à alínea 4...)
6 - "Não, foi um médico na urgência quando tinha febre..."
Há doenças graves que podem afectar o coração na criança.
Mas, se o seu filho é saudável, só tem daquelas doenças
esporádicas e transitórias, que lhe pegou o irmão ou apanhou
na creche, então descanse ...
(Volte à alínea 4...)


Por fim, se o médico pediu mesmo uma avaliação por um especialista de coração de crianças, é melhor marcar consulta, mas “sem stress nem pressas”   :)
VER TAMBÉM: https://www.youtube.com/watch?v=ZOH8jEN7H2I